Violência mesmo ou mero discurso?
Nasci em Bauru, cresci aqui e somente com dezenove anos deixei a cidade. Nunca havia passado longo tempo distante. No entanto, uma boa oportunidade mandou-me bastante longe e fiquei quase dois anos sem revisitá-la. Na volta, a cidade estava bonita, desenvolvida nas partes nobres, carros possantes desfilavam pelas avenidas arborizadas, prédios sendo construídos concentradamente na cidade alta. Não senti orgulho, pelo contrário, porque acompanhado a esse superficial desenvolvimento descobri uma cidade violenta, senão violenta de fato, violenta pelo próprio discurso de violência que a impregna. Não sei estatísticas e dados sobre a violência em Bauru, mas o que percebo é a disseminação de um discurso da violência. Claro que com o crescimento desigual da cidade os índices da violência tendem a aumentar, mas me questiono o quanto é realidade e o quanto é discurso essa violência tão divulgada.
Violência dá ibope, dá noticia aos jornais e televisões. Queremos sempre estar informados das tragédias, cultivá-las. Somos incapazes de mudar o canal quando o noticiário especula sobre um crime. Amamos essa indignação que a violência nos causa, amamos inconscientemente a revolta gerada pelos crimes. Sempre consulto as notícias mais lidas no site do jornal Folha de São Paulo e não me espanta em nada ver que estão no topo as notícias das grandes catástrofes, dos assassinatos e dos estupros. Com essa combinação - mídia eufórica por ibope + inclinação pela indignação – contribuímos para a criação de um discurso da violência.
Em Bauru não é diferente, o medo se alastra pela cidade. Existem razões concretas para isso, mas julgo que há ainda mais uma exaltação da violência pelo discurso produzido. Vejo que se materializa nas casas com seus imensos portões e cercas elétricas, construindo uma arquitetura bem distinta daquela existente em minha infância. Infelizmente somos levados a acreditar que esses acessórios de segurança afastam a violência, mas erramos, pois eles contribuem para a sua manutenção, já que utilizando tais métodos deixamos de questionar o problema de forma profunda, desconsiderando sua origem e possíveis soluções ligadas a uma reestruturação social. Grades e cercas não barram a violência, afastam-na parcialmente do espaço privado. Desse modo, reforçamos a idéia de que soluções individuais resolvem um problema que é estrutural, combatido somente com medidas públicas totalizadoras, capazes de ver a sociedade como um complexo sistema interligado. Se não considerarmos que existe uma ligação direta entre desigualdade social e violência, nunca poderemos resolver esse problema e continuaremos cultivando essa cultura das grades e cercas a qual me parece já bastante naturalizada. A meu ver essa cultura dos sistemas de segurança é, de um lado, bastante ingênua, pois de longe são capazes de solucionar realmente o problema da violência.
A indignação que sentimos não deve ser direcionada aos crimes realizados, mas sim à estrutura que os geram. Se a violência é de fato apenas um discurso, a sociedade incorporou-o, caso seja realidade, vivemos numa situação intolerável de guerra civil na qual não cabe uma discussão rasa e infantil sobre o assunto.
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